Há muito tempo, no início do mundo, os Baniwa viviam em harmonia com a floresta e os espíritos que ali habitavam. Porém, um tempo de desrespeito e desordem se aproximava. Os humanos começaram a esquecer os ensinamentos dos ancestrais e passaram a ofender os seres sagrados com seus atos.
Foi então que uma cobra gigantesca, de escamas negras como a noite e olhos de fogo, despertou das profundezas da Terra. Seu nome era Amaru, o espírito das águas e da destruição. Ela havia sido aprisionada pelos deuses nas cavernas submersas, mas o desrespeito dos homens quebrou os selos antigos.
A cobra se ergueu com fúria e, ao mover seu corpo colossal, fez tremer o chão e transbordar os rios. Suas passadas cavavam vales, suas voltas criavam montanhas, e de sua boca jorrava uma água que nunca cessava. Assim nasceu o grande dilúvio, que cobriu florestas, aldeias, animais e homens.
Somente os puros de coração foram salvos, aqueles que ouviram os xamãs e subiram nas árvores mais altas, nas montanhas ou se abrigaram em canoas feitas com madeira sagrada. Um xamã poderoso, guiado pelos espíritos, subiu ao topo da montanha mais alta com seu povo e implorou misericórdia aos céus.
Comovido, Tsunhũrũ, o espírito criador, ordenou que os trovões cortassem o céu e selassem novamente Amaru no fundo da Terra. A água, então, começou a recuar lentamente. Quando tudo voltou ao normal, os sobreviventes fizeram rituais em memória dos que se foram e prometeram nunca mais esquecer os ensinamentos dos espíritos.
A partir desse dia, os rios que correm pelo território Baniwa são considerados sagrados — e em certas épocas, dizem os anciãos, ainda se pode ouvir o rugido da cobra gigante sob as águas, lembrando que a destruição pode voltar, se a floresta e seus mistérios forem desrespeitados novamente.