A Lenda da Mãe do Mato

Nas profundezas das florestas do Amapá, onde o som do vento conversa com as folhas e os rios serpenteiam como veias da terra viva, habita um espírito antigo e poderoso: a Mãe do Mato.

Conta-se entre os mais velhos da aldeia que, muito antes dos homens dominarem as trilhas da mata, ela já caminhava entre os animais e as árvores, com cabelos longos como cipós e olhos brilhantes como vaga-lumes à meia-noite. Sua pele era da cor da terra molhada e seus pés nunca deixavam rastros.

A Mãe do Mato não é vista com frequência. Ela aparece apenas quando a floresta está em perigo ou quando um caçador ousa matar por ganância. Seu perfume lembra flores silvestres e seu canto embala os pássaros. Mas cuidado: se um homem invade seu território com más intenções, ela se transforma.

Há quem diga que seus olhos viram fogo e sua voz ecoa como trovão. Em noites de lua cheia, alguns moradores garantem ter ouvido seu choro profundo vindo das matas, um lamento pelas árvores derrubadas e pelos animais caídos sem necessidade.

Certa vez, um caçador ambicioso, conhecido por matar sem piedade, decidiu entrar sozinho na mata fechada, ignorando os avisos dos mais sábios. Levava sua espingarda carregada e o peito cheio de arrogância. Mas nunca mais voltou. Apenas sua espingarda foi encontrada, retorcida como cipó seco e coberta de folhas.

Os anciãos explicaram: ele foi levado pela Mãe do Mato, para aprender com ela o respeito pelos espíritos da floresta.

Hoje, crianças e caçadores do Amapá aprendem desde cedo:
“Se fores à mata, vá com respeito. Caminhe leve, observe em silêncio. A Mãe do Mato está sempre olhando.”

(versão baseada na tradição oral indígena do Amapá)

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