Lenda da origem dos Baniwa e dos Primeiros Seres

Há muito, muito tempo, o mundo era escuro e confuso. Nada existia como conhecemos hoje: não havia rios, nem árvores, nem o povo Baniwa. Era um tempo sem forma, habitado apenas por seres antigos, grandes e poderosos, chamados de Karapanã, Yawi, Dzaui e outros nomes esquecidos pelo tempo.

Foi então que surgiu Dzamaniké, o Grande Transformador, um ser com poder divino, enviado para organizar o caos e dar forma ao mundo. Dzamaniké não era um homem comum. Ele podia falar com os espíritos, atravessar os céus e transformar qualquer coisa com um gesto da mão ou com um sopro de sua boca sagrada.

Dzamaniké desceu à terra numa canoa mágica feita de luz e vento. Ao chegar, viu que os homens ainda eram como animais, rastejando na lama, sem fogo, sem fala, sem costumes. Eles comiam como as onças e dormiam como as cobras. Não sabiam caçar nem plantar. Viviam nas trevas da ignorância.

O Transformador, com paciência, moldou o mundo:

Ele abriu os rios com seu cajado e ensinou os caminhos das águas.

Elevou as montanhas e espalhou as estrelas no céu.

Criou as plantas, os frutos e os peixes, nomeando cada um com sua própria língua sagrada.

Mas os primeiros homens ainda eram imperfeitos. Por isso, Dzamaniké os moldou novamente, um a um. Deu-lhes forma humana, ensinou o uso da palavra, o canto ritual, o arco e a flecha, o cesto, a canoa e o fogo.

Depois, escolheu alguns deles para serem os Baniwa, os que manteriam viva a palavra verdadeira. Esses primeiros Baniwa aprenderam com ele os rituais, os tabus, a sabedoria do cipó e das folhas, e o poder do kumu, o xamã.

Dzamaniké avisou:

“Vocês cuidarão da terra, respeitarão os espíritos da floresta e ouvirão a voz dos rios. Quem esquecer, será punido. Quem guardar a palavra, terá abundância.”

E então ele partiu, sumindo pelas águas do grande rio, onde dizem que vive até hoje, dormindo no fundo das corredeiras, pronto para voltar caso os Baniwa se esqueçam de quem são.

Desde então, os Baniwa se reconhecem como filhos da transformação, nascidos da terra, da água e do sopro de Dzamaniké. São guardiões dos mitos, dos rios e da floresta, herdeiros do mundo que foi organizado pelas mãos do primeiro ser divino.

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