Há muito, muito tempo, quando o mundo ainda era jovem e os rios não tinham nome, os povos ainda não existiam como hoje conhecemos. Apenas os grandes espíritos habitavam a floresta, o céu e as profundezas das águas. Dentre esses seres sagrados, havia uma entidade poderosa, guardiã da fertilidade e da vida: a Mulher-Cobra.
Ela não era uma simples criatura, metade mulher, metade serpente, seu corpo deslizava entre as raízes das árvores e os leitos dos rios. De seus seios brotava um leite sagrado, luminoso, espesso como névoa branca, que continha a essência da criação.
A lenda conta que um dia, ao emergir das águas do grande rio para cantar seu cântico ancestral, a Mulher-Cobra sentiu a dor da solidão. Os outros seres não falavam como ela, não pensavam como ela. Foi então que ela resolveu gerar os primeiros humanos, não em seu ventre, mas a partir de seu leite.
Ela derramou o leite em quatro grandes potes de cerâmica feitos de barro vermelho. De cada pote, nasceram os ancestrais de um povo diferente, cada um com cor, língua e sabedoria própria. Foram os Desana, os Tukano, os Tariana e os Baniwa.
Ela os alimentou, um a um, com seu leite sagrado. E enquanto bebiam, a Mulher-Cobra soprava sobre eles palavras de saber, o dom da música, das histórias, dos rituais. Assim, os povos foram se formando, com suas tradições, seus clãs e seus caminhos.
Mas havia uma condição: esses povos deveriam sempre respeitar o ciclo da natureza e a origem comum entre eles. Se esquecessem disso, o leite da criação secaria para sempre.
Até hoje, os anciãos Desana lembram dessa lenda nas cerimônias, quando a pajelança se faz presente e os cantos antigos ecoam à beira dos rios. Porque o leite da Mulher-Cobra não era apenas alimento — era memória, era espírito, era a origem de tudo.