No início dos tempos, não havia rio. Toda a água do mundo estava guardada dentro de uma imensa cabaça sagrada, sob o cuidado de Umukomasï, o grande espírito ancestral dos Dessana. Ele era um ser poderoso e sábio, responsável por equilibrar a vida entre a terra e o céu.
Essa cabaça era mantida em segredo no topo de uma montanha sagrada, pois os seres do mundo ainda não estavam prontos para receber as águas que dariam origem à vida. Porém, certa vez, um jovem curioso, guiado por uma visão, decidiu subir a montanha para descobrir o mistério escondido lá em cima.
Ao encontrar a cabaça gigante e sentir a vibração da água presa em seu interior, o jovem não resistiu à tentação. Tocou-a, sacudiu-a, e, num momento de descuido, a cabaça caiu e se quebrou, liberando um volume gigantesco de água que desceu em correnteza pelas montanhas e vales.
As águas correram sem parar, esculpindo caminhos, invadindo planícies e moldando a floresta, até formar o grande e imenso Rio Negro. Junto com a água, desceram também peixes sagrados, seres encantados e espíritos das profundezas, que até hoje habitam suas águas escuras.
O rompimento da cabaça não foi um erro, mas sim o início de um novo ciclo. A partir dali, a vida floresceu, os primeiros povos se instalaram nas margens do rio, aprenderam a pescar, a navegar, a dançar e a cantar os cantos de origem.
Mas os mais velhos sempre dizem:
“O Rio Negro é feito do que era segredo. Por isso é misterioso, por isso é sagrado.”
E até hoje, os Dessana reverenciam o Rio como um ente vivo, que pulsa com a energia dos ancestrais e que precisa ser respeitado, pois nele corre a memória do mundo.