A Moça da Lua

Há muito tempo, nos tempos em que os homens ainda sabiam ouvir os sussurros da floresta e os segredos do rio, vivia uma jovem Baré chamada Yarawira, de rara beleza e espírito puro. Seus olhos refletiam as águas calmas do Rio Negro, e seus cabelos longos se confundiam com as sombras das árvores ao entardecer.

Yarawira tinha um hábito: todas as noites, ia até a beira do igarapé e se sentava sobre uma pedra branca para cantar para a lua. Seus cantos eram doces, quase mágicos, e diziam que até os peixes paravam para ouvir. Ela cantava com saudade, mas ninguém sabia de quê.

Certa noite, durante a lua cheia mais brilhante que se lembrava, a tribo ouviu um estrondo suave, como uma onda morna varrendo o céu. Os mais antigos disseram: “A Lua está abrindo seu olho”.

Naquela noite, Yarawira desapareceu.

Seu pai procurou nos matos. O pajé escutou os ventos. As crianças chamaram por ela no rio. Mas tudo em vão. Só o silêncio respondeu.

Foi então que, ao olhar para o céu, os anciãos viram algo diferente: uma forma delicada dançava dentro do brilho da lua. Era Yarawira — seus braços abertos como asas de garça, seu rosto sereno. Ela não chorava, nem sorria. Apenas brilhava.

Desde então, diz o povo Baré, a Moça da Lua aparece em reflexos sobre a água nas noites de lua cheia. Quem vê seu vulto pode sentir uma paz profunda… mas quem tenta tocá-la desaparece para sempre.

Alguns dizem que ela foi escolhida pela Lua por sua pureza. Outros dizem que ela era filha da própria Lua e veio à Terra por engano. Mas todos concordam: quando Yarawira canta lá de cima, os rios ficam mais calmos, e os sonhos vêm mais doces.

E é por isso que os Baré, até hoje, respeitam o luar como se fosse uma presença viva. Porque sabem que ali, entre sombras e luz, ainda vive a alma da Moça da Lua.

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